Ontem fui ao dentista. Ele me disse que eu nunca poderei ser um grande escritor, porque tenho Síndrome de Eagle na cabeça, e que quem sofre disso geralmente escreve muita besteira. E ainda por cima, que eu corro o risco de ficar cego ou louco. Tudo bem. 

Agora, entretanto, um amontoado de frases desconexas estão girando na minha cabeça. 

Por que estarei me desintegrando?
Por que não consigo mais olhar para trás? Por quê?!

Estou acordado desde as 3 horas da manhã. 
Mal consigo movimentar-me pelo meu quarto escritório prisão
tamanha é a letargia dos meus músculos.


Ao abrir a porta do guarda-roupa para guardar, sem amassar,  meu pijama amarelo de listrinhas pretas, dei de cara com um homem de pele morena, o qual estava ali sentado em cima de algumas caixas de miniaturas. Com o susto, e num ato reflexo, fechei imediatamente a porta para não ver mais aquele rosto vermelho. Não sei quem é, e nem o que  está fazendo lá dentro. 

Vou dar umas voltas pela cidade, para me acalmar e criar coragem para então, quando voltar, novamente abrir a porta do guarda-roupa e ver se realmente há alguém ali, ou se tudo não passou de uma ilusão. Por ora, a lembrança ainda fresca de seu olhar penetrante, me fitando em silêncio, me apavora. 


O poço é fundo e a lama muito suja.


Faço muita força, ao lado do vaso solitário
mas nenhuma palavra mais surge da ponta do meu lápis...

Apenas o ronco fétido de uma Harley-Davidson Electra afasta-se de mim, abaixo da linha do abdome.

Enquanto o homem de pedra descansa atrás das nuvens, comendo frutas tropicais
em sua cama de barro...

Já não há qualquer sentido nas coisas que eu escrevo.
Não há mais significado nas flores de plástico no vaso...

E quando a noite vem, a luz solar esconde-se sob as folhas murchas das impatiens no chão.
Ouço uma vozinha de taquara rachada me chamando, mas agora sei que nada disso não te importa. 

O canto agonizante de um grilo surge em conta-gotas dentro do bebedouro às minhas costas...
Bem às minhas costas (!)

Deixarei então a carteira e a carreira de escritor para trás e tocarei um pouco o contrabaixo, mas o fone de ouvido é muito potente, e aos poucos perfura os meus ouvidos.


Procuro uma camiseta. Todas que ganhei dos meus filhos, como presente de aniversário nos últimos dez anos, estampam imagens de automóveis. Detesto sair às ruas vestido como um outdoor da Volkswagen ou da Ford, mas é assim que me sinto, olhando-me no espelho com essas camisetas. Penso que seria melhor fazer uma faxina na kit; mas antes de morrer eu vou tomar um café. 

Sigo até o Café Regina pelas ruas de trás, e passo pelas Lojas Americanas para comprar um pendrive.